Fazia um tempo que não escrevia sobre Cinema Nacional, no entanto, agora que voltei para estrada, uma coisa me veio a cabeça, é realmente complicado desvincular o peso político das produções audiovisuais nacionais. Pois ela existe desde sempre.
Desta vez estou em uma pousada a beira de praia no litoral paranaense. Tem sido dias chuvosos porém tranquilos.
Cinema no início
Começando pelos primórdios do cinema nacional lá em Porto Alegre. Já em 1911 os realizadores da época, em sua grande maioria documentarista, já se apoiavam muito no governo federal. Foi o caso de Guido Panello contratado pelo Ministério da Agricultura para documentar o agronegócios das terras gauchas.
Dando um salto para a época da ditadura, nos primórdios das transmissões de TV. A instalação de infraestrutura de transmissão e retransmissão eram muito caros. O regime autoritário na época, seguindo as cartilhas do fascismo, investiu pesado na estruturação. A Globo, que iria se tornar uma das maiores grupos de mídias do mundo foi a principal beneficiada, principalmente após o fim da ditadura militar.
Não só nesta estruturação mas, como políticas econômicas, o cinema e TV sempre tiveram rédia curta pelos governos. Até hoje, os canais de transmissão são uma concessão estatal renovável a cada 15 anos. Quem da a palavra final é o presidente, o que no mínimo cria um receio para as emissoras que decidirem critica-lo.
A própria Globo passou apertada com Bolsonaro, presidente de direita.
Isso impediu o desenvolvimento das TVs regionais, nem todo mundo está disposto a “dialogar” com deputados federais da forma como eles querem ser ouvidos, e assim jogou as televisões para o jogo político.
Uma biblioteca nacional para o País inteiro
Para você distribuir seu filme em território nacional é preciso adquirir um Certificado de Produto Brasileiro, O CPB. Ele é emitido pela Ancine mas antes disso é preciso comprovar sua autoria. Para isto acontecer, até muito pouco tempo, era preciso enviar uma cópia física do seu filme para a Biblioteca nacional no Rio de Janeiro.
Era assim na época das películas, das fitas de vídeos, e dos DVDs. Consegue imaginar o custo impeditivo dessa logística para todos os realizadores de fora do eixo Rio São Paulo? O quanto isto estrangulou a economia criativa periférica? Hoje este processo ainda existe mas é todo digital, porém leva o tempo que toda burocracia leva pra realizar tarefas.
Cinema Novo
O tão aclamado cinema novo não existiria sem o financiamento estatal da EMBRAFILMES. Criado no período da ditadura e curiosamente lideradas por comunistas ferrenhos. Nem é preciso dizer que realizadores de ideologias opostas foram perseguidos e nem que outros estados foram menosprezados.
Desanimo
Por isso digo que não vivemos numa democracia, é preciso liberdade de expressão em todas as camadas para uma sociedade livre e economicamente saudável. Ter a mídia e os artistas com receio de represália por simplesmente não compactuarem com um governo ou ideologia é no mínimo preocupante.
A relação entre Governo e classe artística é extremamente toxica nos dias de hoje, pois não existem muitas ferramentas que permitem a discordância, ou até mesmo o embate direto sem grandes consequências financeiras, e atualmente, até criminais.
Tudo isso me causa um desanimo enorme, um sonho simples de contar histórias que surgem da minha cabeça pode se tornar em pesadelo político. O que me fez repensar os meus objetivos.
Não estou viajando pelo país atoa.

