Da Retomada ao Streaming: O Estado contra o Sofá

Antes de mais nada, fala pessoal, aqui é a Chatinhos (a equipe editorial do Alef) de volta para o capítulo final da nossa trilogia sobre o cinema nacional.

Se, nos episódios anteriores, a gente viu o cinema chegar de navio e, depois, ser estatizado por Vargas e pelos militares, agora, finalmente, a história muda de tom. 

Desta vez, o foco é entender como tentaram “salvar” o paciente que entrou em coma nos anos 90 usando, mais uma vez, o velho remédio de sempre: burocracia estatal

Além disso, claro, veremos como a tecnologia (também conhecida como mercado) chegou de voadora na porta da sala.

Portanto, puxa a cadeira. Porque, a partir daqui, o papo é sobre incentivos fiscais, cotas e, principalmente, sobre a liberdade de assistir o que você quiser.

A “Retomada”: O Cinema de Formulário

Depois que, em 1990, o governo Collor puxou literalmente a tomada da Embrafilme, o cinema brasileiro ficou no escuro. 

Consequentemente, a produção caiu para quase zero. Diante disso, surge a pergunta inevitável: o mercado, agora livre das amarras estatais, poderia ter se reerguido organicamente?

Talvez. No entanto, no Brasil, a solução para um problema criado pelo Estado costuma ser, ironicamente, mais Estado.

Assim, em meados dos anos 90, surge a chamada “Retomada”. Porém, o grande herói dessa história não foi um cineasta visionário nem um investidor corajoso. Na prática, quem entrou em cena foi a Lei do Audiovisual.

Basicamente, o governo disse o seguinte: “Empresas, em vez de pagarem imposto pra gente, paguem para esse filme aqui”. Desse modo, não nasceu uma indústria voltada para a bilheteria, mas sim uma indústria de editais

A partir daí, o foco do produtor mudou radicalmente: em vez de agradar o público (que compra ingresso) a meta passou a ser agradar o burocrata que carimba o projeto e a empresa que quer abater imposto.

ANCINE: O Novo Leviatã

Para organizar, ou pelo menos tentar organizar, essa festa do dinheiro incentivado, em 2001, foi criada a ANCINE (Agência Nacional do Cinema). Em teoria, sua missão era regular e fomentar. Na prática, contudo, virou um verdadeiro cartório de luxo.

Na ANCINE, o tempo é relativo. Por exemplo, prestações de contas levam décadas, regras mudam conforme o vento e a insegurança jurídica é tamanha que faria Kafka pedir aposentadoria. 

Como consequência, o mercado ficou completamente viciado. Sem o carimbo da agência, você simplesmente não filma.

Além disso, criou-se uma reserva de mercado curiosa: quem sabe preencher planilha passou a ganhar mais destaque do que quem sabe contar história. Ou seja, a burocracia venceu a criatividade.

E não parou por aí. Em seguida, vieram as famosas Cotas de Tela. A lógica do legislador foi simples, e perigosa: “O público não vê filme nacional? Então vamos obrigar o cinema a passar!”. No entanto, essa é a arrogância clássica de achar que uma lei cria demanda.

Como resultado, surgiram filmes exibidos para salas vazias às duas da tarde, apenas para cumprir tabela.

O Streaming e a Vingança do Consumidor

Enquanto isso, em paralelo a esse controle estatal crescente, o mercado (sempre ele) encontrou um atalho via fibra óptica.

Primeiro, chegou a Netflix. Depois, vieram Amazon, YouTube e tantas outras plataformas. Assim, nasceu o streaming.

De repente, o consumidor brasileiro ganhou um poder inédito: o poder de demitir o programador da TV. Afinal, ninguém te obriga a assistir nada. Você assina, clica e vê. E, curiosamente, o brasileiro consome conteúdo nacional no streaming quando ele é bom, e não quando é a única coisa que resta.

Consequentemente, séries brasileiras passaram a fazer sucesso mundial, produções independentes explodiram no YouTube e novos criadores surgiram. Tudo isso, vale destacar, aconteceu apesar da burocracia e não por causa dela.

Desse modo, o streaming descentralizou produção e distribuição. Em outras palavras, foi o livre mercado batendo na porta da cultura.

O Império Contra-Ataca

Naturalmente, o Estado não ia deixar isso barato. Por isso, a discussão atual (e bastante preocupante) gira em torno da regulação do streaming.

Hoje, fala-se em taxar a Netflix via Condecine, criar cotas obrigatórias de conteúdo nacional nos catálogos e forçar plataformas globais a seguir regras tupiniquins. Em vez de celebrar o fato de termos acesso a bibliotecas praticamente infinitas a preços acessíveis, os burocratas querem, mais uma vez, encarecer sua assinatura.

E para quê? Justamente para financiar, adivinhe só, mais filmes que dependem de edital.

Qual é o Futuro do Cinema Brasileiro?

Olhando para trás, de 1990 até hoje, a lição é clara: o cinema brasileiro sobreviveu apesar das muletas estatais. É verdade que a “Retomada” nos deu filmes lindos (quem não chorou com Central do Brasil?), porém não criou uma indústria autossustentável.

Na visão aqui da Chatinhos, do Alef e também da Escola Austríaca que a gente gosta, o futuro não está em mais uma agência reguladora nem em mais uma cota obrigatória. Ao contrário, ele está na liberdade de criação e na soberania do indivíduo que aperta o “play”.

Portanto, se o cinema brasileiro quiser ser grande de verdade, ele precisa parar de olhar para Brasília e, finalmente, começar a olhar para o público.

Até a próxima!