Do Estado Novo ao Apagão: A Cultura de Cabresto

Olá, aqui é a Chatinhos (a equipe editorial do Alef) de volta. Se no post anterior vimos o cinema chegar ao Brasil pela livre iniciativa de aventureiros e empreendedores, hoje vamos ver o que acontece quando o Estado decide que cultura é “estratégica” demais para ser deixada na mão do mercado.

Prepare o estômago, porque vamos falar do período em que o cinema nacional deixou de servir ao público para servir aos governos. De Getúlio a Collor, a história é uma aula prática de como a intervenção estatal cria bolhas, dependência e distorções.

A Era Vargas: O Cinema como Propaganda Estatal

Quando Getúlio Vargas instaurou o Estado Novo, ele não estava preocupado com a “arte”. Ele queria controle. Nos anos 30, com a criação do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e do INCE, o cinema virou ferramenta de soft powerditatorial.

A lógica era simples e perversa: o Estado financia, o Estado controla. O famoso Cinejornal Brasileiro não era jornalismo, era publicidade governamental compulsória antes do filme que você pagou para ver. Foi aqui que nasceu o “pecado original” do nosso audiovisual: a ideia de que o cineasta precisa ser amigo do rei para conseguir filmar. O cinema deixou de olhar para a bilheteria e passou a olhar para o gabinete oficial.

Vera Cruz: O Sonho Industrial (e o Choque de Realidade)

Nos anos 50, tivemos um respiro de tentativa industrial com a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São Bernardo.

A intenção era nobre: fazer cinema com qualidade técnica de Hollywood, com capital privado e grandes ambições. Produziram O Cangaceiro, que foi um sucesso absurdo. Mas a Vera Cruz cometeu um erro clássico de cálculo econômico: focou na produção e esqueceu que o gargalo era a distribuição.

Sem conseguir escoar o produto e competir com os estúdios americanos (que operavam com eficiência de mercado), a conta não fechou. A falência foi triste, mas foi um sinal de mercado: não adianta ter a melhor câmera se o modelo de negócio não para em pé. Infelizmente, a lição que tiraram disso não foi “vamos melhorar o modelo de negócio”, mas sim “o Estado precisa nos salvar”.

Embrafilme: O Leviatã da Cultura

E aí veio o Regime Militar e, com ele, a mãe de todas as distorções: a Embrafilme (1969).

Muitos historiadores chamam de “Era de Ouro”. Nós, que gostamos de contas que fecham, chamamos de Bolha Estatal. A Embrafilme centralizou tudo. Ela era, ao mesmo tempo, a produtora, a distribuidora e a censora.

O mercado ficou viciado em dinheiro de imposto. Criou-se uma “reserva de mercado” artificial. Tivemos sucessos? Sim, Dona Flor e Seus Dois Maridos foi um fenômeno. Mas, para cada sucesso, o contribuinte financiou dezenas de filmes que ninguém queria ver e as famosas pornochanchadas, que muitas vezes só existiam para cumprir cota de tela.

O cineasta virou um despachante de luxo. O sucesso do filme não era medido pelo lucro na bilheteria (voto do consumidor), mas pela aprovação do edital.

O Apagão de Collor: O Fim da Ilusão

Chegamos a 1990. Fernando Collor assume e, numa canetada, extingue a Embrafilme.

A narrativa oficial diz que Collor “assassinou” o cinema brasileiro. Mas vamos olhar com frieza: se uma indústria inteira colapsa no dia seguinte ao corte da verba estatal, ela nunca foi uma indústria de verdade. Ela era um departamento público disfarçado de arte.

O “apagão” dos anos 90 não foi culpa apenas do fim da Embrafilme, mas a prova cabal de que, após 20 anos de protecionismo, o setor não tinha criado musculatura própria, não tinha público fiel e não sabia andar com as próprias pernas. O paciente não morreu porque tiraram o remédio; morreu porque passou a vida inteira ligado a aparelhos e seus músculos atrofiaram.

O Saldo da História

Dessa fase, fica a lição amarga da Escola Austríaca: o Estado não cria riqueza, ele apenas a aloca (geralmente mal). Ao tentar “proteger” o cinema nacional, o governo criou um setor dependente, frágil e desconectado do seu verdadeiro patrão: o público pagante.

E como vimos no post anterior, em vez de aprenderem a lição nos anos 90, inventaram a “Retomada” para repetir os mesmos erros com nomes diferentes.

Até a próxima!


Meta Descrição (SEO)

Da propaganda de Vargas à bolha da Embrafilme: uma análise crítica sobre como o intervencionismo estatal viciou e fragilizou o cinema brasileiro. (149 caracteres)

Resumo

Análise econômica da história do cinema brasileiro: como o DIP, a Vera Cruz e a Embrafilme criaram uma indústria dependente do Estado que colapsou em 1990. (26 palavras)