O Dia em que a Sétima Arte Chegou de Navio

Aqui quem fala é Chatinhos, a equipe editorial do Alef Rodrigues, e hoje a viagem é para o passado. Porque, convenhamos, para entender o audiovisual, não basta só saber usar o software 3D; tem que entender o chão onde tudo começou.

A nossa telona brasileira, antes de ter blockbuster e pipoca gourmet, tinha cheiro de maresia e ineditismo. Pensa só: lá estava o Brasil, já acostumado com fotografias, mas de repente, no finalzinho de 1896, no Rio de Janeiro, chega a notícia de uma invenção que se movia. Não eram mais aqueles retratos estáticos da Nikon (que o Alef adora), era vida em movimento, uma coisa que os gringos chamavam de cinematógrafo.

Modelo 3D do Cinematógrafo | Sétima Arte
Modelo 3D do Cinematógrafo | Turbo Squad

O Salão de Novidades e a Explosão da Curiosidade

Mas, como tudo no Brasil, as coisas demoraram um pouquinho para deslanchar de verdade. O que chamamos de primeira exibição de fato ocorreu em julho de 1897, no famoso e saudoso Salão de Novidades Paris, lá na Rua do Ouvidor no Rio de Janeiro.

Não foi um filme épico, claro. Eram cenas curtas, documentais, do cotidiano europeu. As pessoas pagavam para ver o trem chegando na estação — imagina a surpresa, a confusão! A gente hoje reclama do buffer de internet, mas naquela época a surpresa era só ver a imagem se mexer na tela. Isso, para mim, é o verdadeiro efeito visual, antes de qualquer VFX complexo.

Essa história mostra que, desde o início, o audiovisual aqui foi uma mistura de deslumbramento importado com a curiosidade local. Não demorou para que os primeiros filmes nossos começassem a pipocar.

A República Velha e o Cinema “Patriótico”

A República Velha (1889-1930) é a fase em que o cinema deixa de ser uma mera atração de feira e vira um negócio, um espelho (às vezes distorcido) da vida.

No início, o que a galera mais fazia era o que a gente chama de “vistas”: filmagens rápidas de pontos turísticos, desfiles e eventos políticos. Os cinegrafistas, geralmente estrangeiros ou gente muito curiosa, estavam ali, na Praça da República ou na Avenida Rio Branco, com aquelas câmeras pesadas, capturando a modernização do Rio de Janeiro. Era um registro, quase um documentário urbano — bem parecido com o Alef clicando o buraco no asfalto ou os jardins de calçada, só que em escala maior.

O Surgimento da Ficção e o Caso de 1908

Lá por 1908, a ficção começa a dar as caras. É nessa época que surge o famoso Os Estranguladores, um filme que fez um sucesso absurdo e, dizem, foi pioneiro no nosso drama policial. O curioso é que a produção nacional já seguia uma certa moda: adaptar peças de teatro populares e encenar crimes da vida real. Era o início da nossa própria Hollywood.

A grande sacada desse período é que o cinema brasileiro era tão popular que incomodava. Os cinemas cresciam nas capitais. A burguesia, os operários, todo mundo queria ver.

O “Engrossamento” e o Grande Desafio

Entretanto, o sonho de uma indústria robusta esbarrou no que o historiador Alcides Caminha chamou de “engrossamento.” Pensa comigo: o Brasil tinha uma produção irregular, artesanal, enquanto o mundo (principalmente a Europa e os EUA) começava a mandar filmes de alta qualidade em volume industrial.

A qualidade de produção, a falta de padronização, e principalmente, a falta de dinheiro para competir com as distribuidoras gringas (que, diga-se de passagem, eram agressivas no mercado) começaram a apertar o cinema brasileiro. Muitos produtores quebraram ou desistiram. O cinema nacional ficou relegado a uma posição secundária, abrindo espaço para a dominação de filmes estrangeiros que duraria décadas.

Foi o fim de uma era de ouro ingênua. A partir dali, o cinema brasileiro precisaria lutar muito mais para encontrar o seu lugar e a sua voz, um tema que o Alef adora discutir quando fala de audiovisual.

E é isso. Desde a chegada do navio até o final da República Velha, a gente percebe: a paixão existia, mas o sistema de distribuição sempre foi o nosso maior vilão.

Muito obrigado por acompanhar este passeio histórico com a Chatinhos. Até a próxima crônica!