CURITIBA, PARANÁ: Vira e mexe discutimos aqui sobre Economia Criativa, audiovisual e políticas públicas, mas me dei conta que nunca discuti com vocês o que é Cultura na minha visão.
É um termo muito importante para definirmos, pois é recorrente no debate público, inclusive nos casos que considero mais graves: consumidores de um determinado gênero cultural desconsiderando um outro gênero como cultura e usando este argumento para justificar políticas de “desenvolvimento cultural”.
Mas claro, meu querido artista, não sou nenhum mestre em nada. Sou apenas um artista como você que pensa bastante sobre diversos temas da nossa área. Portanto, meu objetivo aqui é trocarmos uma ideia como se estivéssemos em um bar aqui em Curitiba, onde estou passando esse final de ano.
Então, enquanto esperamos o meu suco de laranja e o seu Chopp, vou estruturando meus argumentos.
Exemplificando
Antes de mais nada, é comum eu ver artistas defenderem fomentos estatais argumentando que “É preciso levar Cultura para a população mais carente” e, portanto, é preciso um investimento de Estado com leis de fomento. Por outro lado, já ouvi comentários, enquanto esperava na fila para o concerto de uma Orquestra Sinfônica, em uma discussão sobre o Funk Carioca: “Este ruído não é música!”
Essas argumentações são frutos de uma visão elitista da cultura. São opiniões válidas em uma sociedade livre como deveria ser a nossa. Portanto, uma mente blindada saberá diferenciar estas opiniões drásticas como apenas uma demonstração de gostos pessoais e, assim, ignorar sua depreciação.
No entanto, elas ultrapassam o campo da opinião, tendo um enorme impacto em nossa sociedade ao aderir à força do Estado e, por isto, acho importante esta discussão. Pois impacta a vida financeira dos brasileiros de maneira incalculável.
Minha significação de Cultura?
Em busca desta resposta resolvi ir atrás do significado desta palavra em outros contextos e assim cheguei à minha própria significação.
Assim, passei a enxergar cultura como resultado da nossa própria vivência em sociedade. Hábitos individuais que se replicam em um contexto de comunidade e, assim, tornam-se identidade. Além do mais, nossos desejos e necessidades nos empurram uns para os outros, e dessa interação surgem grupos com afinidades específicas, sejam gastronômicas, religiosas ou artísticas.
Aqueles que gostam de dançar um ritmo específico… Cantar um determinado gênero… Só comer carne ou vegetais… Um estilo arquitetônico… Grupos que podemos chamar de movimentos culturais.
Teatro, cinema, música, gastronomia, arquitetura… São movimentos artísticos que compõem a cultura como um todo; são consequências diretas dessas vivências. Portanto, querer impor qualquer um desses movimentos a um grupo de pessoas é matar a essência delas.
Por isto digo que não dá pra levar cultura a ninguém, pois ela já está lá.
Como assim imposição?
Cultura não é sobre passado, mas sim um retrato do presente, um retrato fruto de um atrito social em vários níveis diferentes.
Obviamente que o viver em sociedade é um acordo tácito entre o que eu gosto de fazer e o que te irrita; o consenso faz um bom convívio. Contudo, nem sempre haverá este consenso e, em muitos casos, irão se valer de forças ilegítimas para oprimir hábitos indesejados.
Já disse várias vezes que enxergo o Estado como uma instituição fundamentalmente opressora, a mais opressora de todas. Criar leis para reprimir certos hábitos é o maior exemplo de uso de forças ilegítimas. Pois o Estado não gera recursos, ele o confisca e monopoliza. E como todas as instituições, ele é constituído de pessoas com hábitos individuais sobre um contexto de comunidade burocrática, ou seja, o Estado em si é um movimento cultural de pessoas opressoras.
Estou escrevendo um artigo aqui no Blog sobre Instituições Fundamentais vs. Instituições Opressoras onde desenvolvo melhor esta visão.
Autenticidade cultural
A melhor forma para Instituições opressoras controlarem uma nação inteira como a brasileira é a homogeneização da cultura, assassinando essa autenticidade. Aceitar esses recursos de fomento cultural é fazer parte de um enorme projeto de opressão identitária.
Porém, mesmo com este peso todo do Estado em busca de homogeneizar a sociedade para facilitar seu controle, temos uma diversidade cultural lindíssima.
O que é bem complexo de se conseguir: uma sociedade precisa ser livre para experimentar, empreender e viver para que hábitos autênticos surjam, resultando em culturas autênticas. Nem boas nem ruins, pois é relativo a cada um.
Não existe símbolo maior de liberdade do que sua autenticidade.
Não é um ataque
Espero ter concluído meus argumentos antes que fique embriagado com seu Chopp. Mas veja, meu querido artista que se viu obrigado a usar desses recursos públicos para sobreviver sob o pretexto de que o capitalismo é asqueroso pois não valoriza sua arte… Respirei!
Não estou atacando você. Compreendo que está fazendo o que acha necessário para sobreviver como artista em um país opressor como o Brasil. Só estou dizendo que caiu numa armadilha.
Avalie bem quem você defende com unhas e dentes.

